
Alice não caiu em um buraco. Coelhos de colete não existem. Cartas de baralho não falam. Lagartas não fumam. Oráculos são papo furado. O Glorian Day não vai chegar. Ninguém vai sonhar com o Chapeleiro Maluco. Bewart não vai encontrar seus filhotes e nem sua esposa. A Rainha Vermelha tem uma cabeça normal. O Jaguadarte não vai ser destruído. O Capturanda não vai mais ter seu olho de volta. O Chapeleiro Maluco não tem um Chapelema. A Rainha Branca não vai mais usar a coroa. O chá maluco não vai mais ser tomado. O gato de Cheshire não vai mais sorrir. Wonderland é mentira.
Vocês não imaginam a dor cortante que me acomete escrever essas palavras, mas não há outro jeito. Acreditem: essa foi a primeira teoria de Alice quando ela chegou lá pela segunda vez. Por uma desventura lógica, ela estava certa. Para a desventura do Chapeleiro, ela não voltaria mais. Para a desventura dos gêmeos, ela não mudaria de tamanho mais. Provavelmente multidões irão me perseguir após eu dizer isso, mas o exemplo de Alice deve ser seguido. Ela usou a realidade o tempo todo, mas foi na hora de encarar o surreal que ela se tornou muitaz. Essa muiteza, antes, enterrada embaixo do cogumelo de Absolém, o mesmo que a acusou de ser a Alice errada e lhe mostrou o caminho para ser a certa. E ela conseguiu. Conseguiu tornar sua “estadia” em Wonderland o maior feito de sua vida. A vida mais confusa e intrigante já vista. Os feitos mais heróicos e gigantescos já realizados. O orgulho do Chapeleiro Maluco se resumia naquela garotinha de cabelos longos, louros e ondulado. A mesma que cresceu, se recusou a usar corpetes e meias longas e comparou chapéus com bagres.
Eu a invejo. Por tudo. Mas sublinho o único fato que me torna algo pequeno e insignificante em relação a ela: o Chapeleiro a amou.
Alice deverá ser lembrada com satisfação e vivacidade. Foi essa Alice que tornou o impossível País das Maravilhas a possível realidade. Nossa realidade. O nome dela é Alice. Nosso Alice.