O corpo dela rodava. Rodava como a barra de seu vestido vermelho, transformando os volumosos cabelos castanhos e a contornada boca vermelha cereja em um único borrão, que dominava todo o centro do espaço. O moço que a conduzia, tão belo quanto ela, tinha o terno incompleto (sem o paletó), e a gravata estava afrouxada . Porém, assim como na caso da moça, o que mais chamava a atenção nele era boca: não havia batom, mas sim, um sorriso grande e sincero, que expressava toda sua felicidade em conduzi-la e a veneração que sentia por ela.
Não havia uma pessoa dentro do bar que não prestasse a atenção neles. Todos os olhos estavam voltados para a dança do casal, que seguia de forma graciosa e precisa o som da música que tocava no rádio, localizado em cima do balcão. A música, para o agrado de todos, parecia não acabar, e os dois pareciam não se cansar. Era como se tivessem esperado a vida toda para estar ali, juntos, e todoo destino parecia conspirar para que esse momento não acabasse tão cedo. Até demorou... mas, após alguns minutos, a música parou, no momento em que o rapaz levantava a menina nos braços, os olhos se encontrando, e ficando um no outro demoradamente.
O recinto explodiu em aplausos e assobios de todos os lados. Bebidas foram oferecidas a eles, pois provavelmente o barman notou o estado cansado em que ambos de encontravam. Em meio a elogios e pedidos de mais, os dois tiveram que se dar a mão para conseguirem chegar a uma mesa do fundo, com seus refrescos. Uma nova música começou a tocar, e o bar pareceu mergulhar nas mesmas conversas de antes, mas vez ou outra, ainda olhavam para o casal, talvez esperando mais um show. Eles se olharam para rir da situação, e foi ai que notaram um detalhe tão natural, que passou despercebido: ainda estavam de mãos dada. Em vez de se olharem, olharam para elas. Os sorrisos se tornaram expressões sérias, e o silêncio pareceu ser mais longo do que a música.
Até que ela se virou por completo para ele:
_Será que ainda há tempo para nós?
Ele olhou-a intensamente. Apertou forte as mãos, segurou-a forte pela cintura com a outra e trouxe-a para seu colo, sem deixar seus olhos.
_Sempre que houver natais.
E se beijaram em mais um natal.




